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Reflexões sobre a Caridade

Sempre me interessei em compreender o que é de verdade a caridade, lendo, estudando, praticando.  Noto que o assunto costuma ser abordado a partir de ideologias, religiões ou doutrinas que buscam combater o mal que assola tantos seres humanos.

O que mais me chama atenção nestas abordagens, entretanto, é constatar como as interpretações sobre o tema ainda estão vinculadas ao mundo externo e não ao mundo interior das pessoas, onde está a semente, o potencial de qualquer caridade.  O tema caridade é complexo, porque envolve algo difícil de se compreender antes de se vivenciar:  a comunhão com nós mesmos e com os outros.

Essa comunhão pode acontecer quando menos esperamos e com pessoas que conhecemos ou não, em situações que nunca imaginaríamos.  Eu me recordo de uma forte experiência que vivi, nos anos 90, durante uma viagem ao Peru.  Eu voltei de um passeio e entrei no ônibus turístico.  Ao sentar em minha poltrona, da janela do ônibus, senti uma repentina e inexplicável força de conexão por meio do olhar que cruzei com um humilde senhor, que se encontrava muito sereno em meio a um grupo de pessoas que tentava desesperadamente vender algo aos turistas.  Ao cruzarmos nossos olhares, em questão de segundos, nossas mãos se uniram através do vidro da janela, num gesto sublime.  Não me pergunte como isso aconteceu, simplesmente aconteceu.  Não consigo descrever em palavras a sensação, o sentimento daquela experiência.

Várias outras situações vivi em minha vida, que independente de intenções ou interesses, geraram um momentum, uma força que se expressa sem palavras, com outras pessoas, com grupos, equipes, familiares, amigos, conhecidos, colegas e, até mesmo, com estranhos que aparecem do nada, como se fossem anjos com a missão de me inspirarem para algo maior, superior ao  cotidiano tão escravizante do sistema em que vivemos, livres de conceitos, expectativas ou definições.

Penso que é impossível viver neste planeta sem interesses, sejam eles os mais mundanos ou elevados.  O que muitas vezes pensamos ser caridade, nada mais é do que a tentativa de seres humanos autômatos e carentes buscarem compensar seus vazios com atos “salvadores”, frequentemente acreditando que estão “ganhando pontos com Deus” e partindo de premissas que valorizam o sofrimento e a dor como remédios inevitáveis para a evolução humana.  Ou seja, muitas vezes, a caridade nada mais é do que uma resposta cultural a um paradigma ou conceito doutrinário, religioso, institucional, criado a partir de crenças humanas limitadas e fortemente vinculadas ao medo, à escassez.

Acredito que a verdadeira caridade começa em como tratamos a nós mesmos e o quanto nos amamos de verdade para, então, podermos receber e dar amor.  Acho oportuno refletirmos sobre outro tema:  a força do inconsciente.  Sabemos, de verdade, o que estamos plantando em nossas vidas? Temos, mesmo, consciência do que plantamos?  Mas este tema, ficará para um próximo post!